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Apiforme

Essa ideia está remoendo há alguns dias já. Remói e remói cá dentro.
Que pode um poeta diante de um fotógrafo?
Primeiramente, apostava na excelência da palavra: na beleza do lirismo ou até mesmo na frieza do racionalismo. Eu cria na força desse universo monocromático. Desse ambiente abstrato e interpretativo.
Mas foi exatamente essa característica metafísica o golpe de misericórdia do apaixonado poeta.

Enquanto ele se descrevia, conferia à sua alma - se já não bastasse o corpo - toda a abstração possível. O poeta era todo vapor e se entregava em um potinho para a amada. Assim, cada vez que dele sorvia, que ele inspirava, perdia-o. A cada pequena inspiração, sua alma se esvaía. (Enquanto ele, em vão, teimava em ficar ao lado da amada, tudo que conseguia era fazê-la tossir com toda aquela névoa.)

Fhhhhhh

Com um clique apenas, só um, o fotógrafo lufou.
A névoa, e toda a alma, e todo o poeta se foram.

O último, o dedicado à fotografia, pôde então mostrar à amada do primeiro - desejo deste - um mundo de vontades e promessas. Um mundo com o qual o poeta só sonhava e, pra não ser irresponsável, incauto, não proferia ou predizia. Afinal, para o fotógrafo era muito mais fácil fazê-lo. Era todo físico, estado sólido. Dava-se à desejada em fotos. Definia-se concretamente, sem abertura para outras interpretações ou conjecturas. Dava-lhe o que era, toda sua essência. É certo que também aventurou-se no mundo monocromático das palavras, mas estas, por lhe ser desconhecidas, não passavam de simples paráfrases, meras citações. Eis o porquê de nelas não conter sua alma.
Eis porque o fotógrafo não se ia.

Da névoa fria (e nada frígida) a amada tinha certa lembrança. Carinho até. O gosto da própolis que nunca provara ainda estava em sua boca. O forte cheiro de fel mel invadia-a a alma.
O ferrão de amor, porém, ainda nela residia. Por ora, não tinha inflamado. 

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