se nada buscas, me encontras.

(não tão) Logo

Há anos perdi meu pai. (In)Felizmente, não foi do método tradicional. É. Ele não morreu. Pelo menos não oficialmente, não completamente, não definitivamente.
Deve fazer cinco já, e eu era um bebê, tudo explodiu. Os três empregos se foram e a estabilidade também. A nossa casa - antes relativamente calma e equilibrada - deu dois loopings e caiu de ponta cabeça.
Meu pai entrou em depressão. A famosa doença d(esse)o século, aquela que na maioria dos casos não tem motivo e não tem cura, só consequências e agravadores. Sim, sempre agravadores. Só catalisadores da dificuldade que é passar por tudo isso.

Mas eu sempre fui meio órfã. Já me senti muito culpada por falar isso, e até mesmo pensar, entretanto, é o que eu, de verdade, sinto. Desde que nasci, meu pai morava na estrada e nos visitava esporadicamente. Não lembro muito bem, é minha mãe quem conta e, também, desde as minhas primeiras lembranças, ele é um viajante. Eram semanas longe e lembranças na volta - como que pra compensar a ausência.

A primeira palavra que falei foi "Papai". Minha mãe falava tanto dele pra mim - como que pra suprir a ausência - que em pouquíssimos e precoces meses esse era todo meu léxico. Após alguns 2 anos e 4 meses, veio o outro, meu irmão. E, é complicado, eu não administrei isso bem. É super engraçado - e triste - ver as fitas de quando éramos mais bebês que hoje. Meus ciúmes eram gritantes, e a sua inocência e amor infinitos.

E crescemos um pouco. Nos mudamos. Saímos de perto de avós, de primos, de amigos, da família. Ou melhor, com o tempo, aprendi que minha família é, na verdade, nós quatro. Eu. Meu irmão. Minha mãe. Meu pai. Sem grandes festas no Reveillon, sem árvore de Natal, com presentes de Dia das Crianças divididos, com a ausência de pai. Mas eu sempre ouvia "Papai não está hoje em casa pra poder nos dar uma vida melhor." Que vida melhor? O que tínhamos eram algumas tarde brincando de futebol no quintal de casa. E só.

Aí, numa noite minha mãe me senta e o meu irmão para conversar. Eu sempre fico nervosa com essas conversas. Nosso pai passava por um momento muito difícil mas, logo logo ele sairia, ela prometera.


Tivemos essa conversa há três anos. E o logo logo não chega.

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